Admito – Gustavo Lacombe

Eu admito que deixo a toalha em cima da cama. Melhor você saber antes de me dar aquela bronca. Admito que abro a geladeira sem querer pegar nada, que esqueço a luz da sala ligada e demoro pra sair de casa – sempre lembro de algo em cima da hora. Não sou dos mais pontuais, não lembro de abrir a porta todas as vezes. Admito que vou esquecer nossas datas.

Nossa música, não.

Sei que tenho que admitir que ficarei chato. Vou censurar seu vestido, falar alguma coisa dos seus modos. Não será querendo te melhorar. Te gosto desse jeito, pra mim tá perfeito. Só que todo mundo falha. Aliás, quando você me cobrar, é bem capaz de eu não gostar. Paciência, tá? Admito que não gosto de ser criticado, mas é preciso. Nunca se cale.

Vai ter domingo que eu vou te trocar por algum futebol. Você vai insinuar que gostaria de ganhar aquela rosa, aquela cesta de café da manhã, mas admito que nunca deixei faltar carinho a quem gosto. Uma coisa boa pelo menos, né? Não hesite em pedir, mesmo eu sabendo que certas coisas tem que partir dos outros. Ninguém pode ficar mendigando atenção. Admito que posso acabar machucando seu coração.

Quebrá-lo, não.

Admito que eu já senti amor, já conheci paixão. Já andei de mãos dadas. Eu tenho passado, quer queira quer não. Estou sendo franco o bastante porque, em vista do que acontece comigo, não admitir certas coisas seria um erro. Se a gente tem se dado tão bem, nada melhor do que eu deixar você saber como realmente sou. E tomara que você tenha tempo o bastante para me conhecer melhor do que eu mesmo.

Sabe, eu tenho que admitir mais um monte de coisas, mas entregar tudo assim de bandeja seria chato. Descobre mais um pouco enquanto eu também te decifro. Só preciso que saiba de mais uma coisa, tá? Não é nem mais um segredo, mas como não disse antes, agora eu falo. Admito que te amo. Posso até estar, de alguma forma, me precipitando, mas não é confusão de sentimentos nenhuma. Eu sei o que sinto quando vejo seus olhos.

Admito que disso eu não me engano.